quinta-feira, junho 16, 2005

Bestiário



POEMA DO GORAZ

Estava um goraz sentado
numa pedra, à tardinha.
O grande Oceano dourado,
como raposa na vinha.
Não será do seu agrado,
ter-me agora por vizinha
(já que mostra algum enfado)
— perguntou-lhe a tainha.
Mais vale dormir de lado,
que nadar como a sardinha
e na pedra estar sentado
que uma pedrada na pinha.

José Alberto Oliveira, Bestiário, Assirio & Alvim, Lisboa, 2004

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quarta-feira, maio 04, 2005

Os paineis de S.Vicente de Fora

segunda-feira, abril 04, 2005

A Estultícia



... Da mesma farinha são os escritores que correm atrás da fama imortal publicando livros. Todos me devem muito, principalmente aqueles que sujam o papel com meras bagatelas. Quanto àqueles que escrevem eruditamente para serem julgados pela minoria dos doutos, que não recusam o juízo de Pérsio ou Lélio, parecem-me mais míseros do que beatos, porque perpetuamente se torturam. Acrescentam, mudam, suprimem, repõem, repetem, refazem, insistem, guardam o manuscrito durante nove anos, e nem assim ficam satisfeitos; o louvor, fútil prémio, e que só poucos recebem, é comprado por vigílias, por suores e por tormentos, quando o sono é a coisa mais doce. Acrescentemos o dispêndio de saúde, a perca da formosura, o cansaço da vista e até a cegueira, a pobreza, a inveja, a abstinência de volúpia, a precoce senectude, a morte prematura, e outras tantas misérias. Com tantos males obtém o sapiente apenas a aprovação de um ou outro semelhante. Ao passo que o meu escritor, delirante de felicidade e sem dura lucubração, deixa passar pelo cálamo tudo quanto vai sendo visto pela alma, dorme e transcreve os sonhos, consome apenas o papel, e não desconhece que quanto mais fúteis forem as suas futilidades tanto mais será aplaudido pela maioria, isto é, por todos os estultos e indoutos. Que lhe importa a reprovação de dois ou três doutos que porventura o leiam? De que valeria a opinião de tão poucos sapientes perante a turba imensa dos que o aplaudem? ...

Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura, Guimarães Editores, Lisboa, 1957, Trad Alvaro Ribeiro.

segunda-feira, setembro 13, 2004


Votre cerveau vous trompe, Science et Vie, nº 1044, Sep. 2004, p 38-64
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domingo, agosto 29, 2004


Jorge de Sena, O Reino da Estupidez II, Morais Editores, 1978
capa de Luis Duran sobre pormenor de "A queda dos anjos rebeldes" de Bruguel
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domingo, agosto 22, 2004

Alfred Deller

A discography. Conception & research: Pierre-F. Roberge

sexta-feira, agosto 13, 2004

1 As Palavras do Papagaio

aprendi a dizer o que aprendi a dizer, diz ele.
aprendi a dizer que aprendi o que aprendi a
dizer, diz ele. aprendi a dizer que não aprendi
o que não aprendi a dizer, diz ele. comecei a
dizer o que aprendi a dizer, diz ele de dentro
da sua gaiola, aprendi a dizer o que dizem que
se pode dizer, diz ele de dentro da sua gaiola,
mas como dizem que o que se pode dizer apenas
é o que já foi dito, diz ele de dentro da sua
gaiola, só aprendi a dizer o que já foi dito,
diz ele, e como não aprendi também a dizer o
que ainda não foi dito, diz ele, não sei se só
digo aquilo que sei ou se só sei aquilo que
digo, e assim é e tenho dito, diz ele de dentro
da sua gaiola, batendo com as asas de mau modo.

Alberto Pimenta, O Bestiário Lusitano, Edição do autor, 1980